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Antes de mais nada, gostaria de agradecer a todos pelos comentários. Acredito que a liberdade de expressão, assunto tão na moda, (só perde para Deus e aborto) tem na internet sua pequena chance de “salvação”. Digo isso porque, diferente do que está no noticiário da grande mídia, o que verdadeiramente está em jogo não é a “liberdade de imprensa”, que, obviamente, defendo com unhas e dentes, pois sou o primeiro interessado nesta questão, mas o “direito à informação”. Direito este que tanto nos tem faltado, numa das campanhas eleitorais mais medíocres que pude assistir. Por isso, vou passar a usar este espaço não somente para publicar minha produção diária de charges, mas também textos, pensamentos, fatos, que considero importantes para tentar entender um pouco este momento torpe de nossa tão maltratada pátria.

Observatório da imprensa

ELEIÇÕES 2010

Guerra suja na campanha eleitoral

Por Venício A. de Lima em 12/10/2010

As campanhas eleitorais têm servido para revelar, de forma inequívoca, qual a ética empresarial e jornalística que predomina na grande mídia brasileira.

Os episódios recentes relacionados à demissão de conceituada articulista do Estado de S.Paulo, assim como a ação da Folha de S.Paulo, que obteve na Justiça liminar para retirada do ar do blog de humor crítico “Falha de S.Paulo”, são apenas mais duas evidências recentes de que esses jornalões adotam, empresarialmente e dentro de suas redações, práticas muito diferentes daquelas que alardeiam em público.

Como se sabe, o Estadão é o jornal que afirma diariamente estar sofrendo “censura” judicial, há vários meses.

Tratei do tema neste Observatório quando da demissão do jornalista Felipe Milanez, editor da revista National Geographic Brasil, publicada pela Editora Abril, por ter criticado, via Twitter, a revista Veja.

Corre solta também, na internet, uma guerra – e, como toda guerra, sem qualquer ética – de manipulação da informação, agora tendo como aliados partidos de oposição e os setores mais retrógrados das igrejas católica e evangélica, incluindo velhas e conhecidas organizações como o Opus Dei e a TFP.

Ademais, uma série de panfletos anônimos sobre candidatos e partidos, de conteúdo mentiroso e manipulador, tem aparecido e circulado em diferentes pontos do país, aparentemente de forma articulada.

Estamos chegando ao “primeiro mundo”. Repetem-se aqui as estratégias políticas obscuras que já vem sendo utilizadas pelos radicais conservadores ligados – direta ou indiretamente – à extrema direita do Partido Republicano – o “Tea Party” – e também pela chamada “Christian Right”, nos Estados Unidos.

A bandeira da liberdade de expressão equacionada, sem mais, com a liberdade de imprensa, não passa de hipocrisia.

Começou com o PNDH3

A atual onda, que acabou por deslocar o eixo da agenda pública da campanha eleitoral e da propaganda política no rádio e na televisão para uma questão de foro íntimo e religioso, teve seu início na violenta reação ao Programa Nacional de Direitos Humanos 3 (PNDH-3), capitaneada pela grande mídia. Na época, escrevi:

“O curto período de menos de cinco meses compreendido entre 21 de dezembro de 2009 e 12 de maio de 2010 foi suficiente para que as forças políticas que, de fato, há décadas, exercem influência determinante sobre as decisões do Estado no Brasil, conseguissem que o governo recuasse em todos os pontos de seu interesse contidos na terceira versão do Programa Nacional de Direitos Humanos (Decreto n. 7.037/2009). Refiro-me, por óbvio aos militares, aos ruralistas, à Igreja Católica e, sobretudo, à grande mídia.”

São essas forças políticas – com seus paradoxos e contradições – que agora se unem novamente para tentar influir no resultado das eleições presidenciais de 2010, valendo-se da “ética” de que “os fins justificam os meios”.

Lições

A essa altura, já podem ser observadas algumas lições sobre a mídia e suas responsabilidades no processo político de uma democracia representativa liberal como a nossa:

1. Não é apenas a grande mídia que tem o poder de pautar a agenda do debate público. A experiência atual demonstra que, em períodos eleitorais, essa agenda pode ser pautada “de fora” quando há convergência de interesses entre forças políticas dominantes. Elas se utilizam de seus próprios recursos de comunicação (incluindo redes de rádio e televisão), redes sociais (p. ex. Twitter) e correntes de e-mail na internet. A grande mídia, por óbvio, adere e abraça a nova agenda por ser de seu interesse.

2. Fica cada vez mais clara a necessidade do cumprimento do “princípio da complementaridade” entre os sistemas de radiodifusão (artigo 223 da Constituição). Seria extremamente salutar para a democracia brasileira que o sistema público de mídia se consolidasse e funcionasse, de fato, como uma alternativa complementar ao sistema privado.

3. Independente de qual dos candidatos vença o segundo turno das eleições presidenciais, a regulação do setor de comunicações será inescapável. Não dá mais para fingir que o Brasil é a única democracia do planeta onde os grupos de mídia devem prosseguir sem a existência de um marco regulatório.

4. O artigo 19 da Constituição reza:

É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na formada lei, a colaboração de interesse público.

Apesar de ser, portanto, claro o caráter laico do Estado brasileiro, na vida real estamos longe, muito longe, disso.

5. Estamos também ainda longe, muito longe, do ideal teórico da democracia representativa liberal onde a mídia plural deveria ser a mediadora equilibrada do debate público, representando a diversidade de opiniões existentes no “mercado livre de idéias”. Doce ilusão.

Venício A. de Lima é jornalista, sociólogo, mestre, doutor e pós-doutor pela Universidade de Illinois; pós-doutor pela Universidade de Miami; professor-titular de Ciência Política e Comunicação aposentado da Universidade de Brasília; fundador e primeiro coordenador do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política da UnB, ex-professor convidado da EPPG-UFRJ, UFPA, UFBA, UCB e UCS, no Brasil, e das universidades de Illinois, Miami e Havana.”

Clovis Rossi

Clovis Rossi, ontem, 21/06, na Folha

Luis Fabiano, mas pode chamar de Henry

DE SÃO PAULO

Lembra-se da mão de Thierry Henry, o atacante francês, aparando a bola para dar o passe para o gol que classificaria a França e eliminaria a Irlanda do Mundial da África do Sul? Lembra-se também do rugido coletivo e universal de repúdio que se seguiu, principalmente no Brasil?

Muito justo. Mas qual é a diferença entre o braço de Luis Fabiano e a mão de Henry, fora a parte do corpo envolvida no crime? Zero. E onde está, então, o rugido de indignação com a validação do gol do centroavante brasileiro?

O que há é exatamente o oposto, mesmo entre dois dos colunistas que eu facilmente colocaria no meu panteão de heróis da crônica esportiva, a saber Tostão e Juca Kfouri, na Folha de segunda-feira.

Tostão chegou a considerar “antológico” o gol, “apesar de a bola ter tocado em seu braço”.

Não, Tostão, não. A bola não tocou no braço, o braço é que foi erguido para aparar a bola, uma vez e na seguinte também. Sem o uso do braço, Luis Fabiano não dominaria a bola e, por extensão, não haveria gol, muito menos gol “antológico”.

Juca dá ao gol status de Pelé e escreve que “os três chapéus (…) anulam a matada com o braço que antecedeu o arremate”.

De novo, não é nada disso, Juca. O braço é a causa do gol, não os três chapéus. Ou seja, não dá para dizer que foi um golaço, APESAR do braço, porque o que houve foi um gol POR CAUSA do braço, não apesar dele.

Dias antes desse jogo, e aproveitando o período forçado de repouso como “habeas-corpus” para ver todas as mesas-redondas sobre a Copa sem que minha mulher pudesse reclamar (muito), ouvi no canal SporTV, o colunista Renato Maurício do Prado, também de “O Globo”, fazer um verdadeiro comício contra a França, justamente por conta do gol irregular que Henry armou.

Chegou a dizer que gostaria que os dois gols do México, o 2 x 0 contra a França, tivessem sido ambos irregulares para que a França provasse de seu próprio veneno.

Não deixa de ser uma vingança poética (e ética), mas para ficar coerente, gostaria de checar se ele, agora, vai rogar praga para que o Brasil seja eliminado com um gol de mão (de preferência numa eventual partida contra a Argentina).

O que há de ruim nesse episódio –em tantos outros que envolvem a seleção brasileira em Copas– é a aceitação de comportamentos jornalísticos inadmissíveis em outras circunstâncias.

Caso da Rede Globo, por exemplo (e que conste que vi o jogo, bem como todos os anteriores na ESPN Brasil, enfim um canal que informa mais do que torce).

Terminada a partida, Galvão Bueno, forçado a reconhecer que Luis Fabiano usara duas vezes o braço, encerrou o assunto mais ou menos assim: se ele [Luis Fabiano] disse que foi involuntário, então foi involuntário.

Imagine agora se o “Jornal Nacional” mostrasse José Roberto Arruda, o governador afastado do DF, dizendo que recebeu, sim, propina, mas “involuntariamente”. William Bonner enceraria o telejornal dizendo que, se Arruda afirma que foi involuntário, então foi involuntário? Jamais.

Se é assim, então porque a Globo não aplica um “cala a boca, Galvão”? Que jornalistas esportivos torçam para a sua seleção (acontece em todos os países do mundo) é algo tão inevitável quanto o sol nascer todos os dias. Mas pelo menos deveriam ser proibidos de torcer também os fatos.

PS – Sempre como prestação de contas ao leitor, informo que uma das três costelas fraturadas ainda não se recuperou, o que obriga a mais alguns dias de repouso. Mas repouso apenas moderado, o que, espero, me permitirá voltar a escrever a “Janela” ainda que intermitentemente.

Crítica sobre o “O Homem Roxo”

Pablo Villaça é crítico de cinema, professor, membro da Online Film Critics Society e editor do Cinema em Cena

O Homem Roxo

Por: Pablo Villaça

A primeira coisa que notamos no protagonista (e personagem-título) de O Homem Roxo, documentário dirigido por Carlos Canela e Duke, é sua fragilidade física. Magro, pálido e com dedos ossudos que terminam nas típicas pontas inchadas e roxas de um paciente vítima de cardiopatia crônica, Fernando Fiúza surge deitado em seu quarto de hospital como se à beira da morte.

E é então que ele abre seu largo sorriso e se põe a contar sobre sua estratégia para conseguir burlar a natureza insossa da comida do hospital.

Esta abertura, aliás, parece surgir, à primeira vista, como o primeiro grande problema em potencial do filme: por que, afinal, os diretores devotam tanto tempo a um monólogo irrelevante sobre a idéia de Fiúza de guardar a carne do almoço para colocá-la no pão do lanche, fazendo um sanduíche que traz algum sabor ao seu dia? Será que os realizadores, cegos pela admiração provocada pela personalidade do retratado, se deixarão levar por qualquer besteira que este diga, considerando até mesmo os relatos mais tolos como pérolas de sabedoria?

Felizmente, logo a abordagem de Canela e Duke é justificada quando compreendemos que, afinal, é justamente o talento de Fernando Fiúza de achar graça no prosaico que o torna tão especial. Como um homem que “nasceu para morrer” (como é descrito por uma de suas amigas), passando toda a existência sabotado pelo próprio coração defeituoso, pode encontrar tanta alegria em tudo que o cerca? Seria esta sua insistência em rir do absurdo da própria situação um sinal de negação da própria condição?

A resposta a esta última pergunta eventualmente se torna clara (e voltarei a ela), mas o fato é que, justamente por se manter tão vivo (literal e figurativamente), Fernando Fiúza construiu uma trajetória admirável: apaixonado pelo desenho desde criança, transformou a brincadeira infantil em profissão, tornando-se um artista plástico expressivo; levado pelo impulso de fotografar uma amiga que dormia ao sol, descobriu-se um fotógrafo capaz de brincar com a luz de maneira mágica; dominado pelo próprio amor à Arte e aos amigos, fracassou em converter todo seu sucesso profissional em riqueza material.

Mas a fortuna que não se encontrava no banco surgia de forma abundante em sua felicidade inabalável, em sua insistência em experimentar a vida enquanto contrariava as recomendações de cautela de seus médicos. Amparado pela mãe que acertou ao jamais tratá-lo de forma diferente em relação aos irmãos e por um pai que, sofrendo pelo filho, transformou sua dedicação a este em missão de vida, Fiúza deixou um legado artístico repleto de fôlego e beleza – mas, mais do que isso, deixou também uma galeria de amigos apaixonados por sua energia e alegria.

E é justamente ao levar o espectador a compreender esta essência especial de Fernando Fiúza que O Homem Roxo se torna tão bem-sucedido na tarefa de desvendar o segredo que levou o garoto doente a desafiar todos os prognósticos pessimistas dos médicos e a viver quase seis décadas repletas de aventuras, experiências e Arte: longe de ser um esforço de negação, foi sua capacidade de ser feliz apesar de sua precoce sentença de morte que manteve este personagem admirável vivo por tanto tempo.

O Homem Roxo

O Homem Roxo

Tem lançamento nesta quinta, 08/04, o Filme o “O Homem Roxo”. Com direção minha e de Carlos Canela. Trata-se de um documentário sobre um grande amigo e  artista, Fernando Fiúza. “Nando” faleceu no ano passado, numa sexta-feira, exatamente um dia após o filme ficar pronto. Deixou além da saudade tamanha e uma vasta produção artística, uma lição de vida. O lançamento acontece no Usiminas Belas Artes Cinema, na Avenida Gonçalves Dias, 1581, Lourdes, BH.